A Organização Mundial da Saúde (OMS) definiu como meta atingir a cobertura universal de saúde até 2030. Para que seja alcançada, a OMS afirma que o mundo precisa de mais 9 milhões de enfermeiras(os).

Nas Américas, a OPAS destaca que são necessários 800 mil profissionais de saúde a mais, incluindo pessoal de enfermagem e obstetrícia. Além de um maior número de profissionais, é necessária a ampliação do escopo de atuação do enfermeiro e a pandemia da Covid-19 torna esse fato ainda mais evidente, dada a falta de profissionais de saúde para atender toda a demanda. Afinal, para uma população mais bem cuidada, artigos mostram que Enfermeiros de Prática Avançada (EPA) são essenciais tanto para melhorar o acesso do paciente aos cuidados primários à saúde quanto para oferecer atendimento em saúde de qualidade, com resultados eficazes e eficientes.

Com a ampliação do acesso à Atenção Primária à Saúde (APS), obtém-se uma melhora nos índices de mortalidade materna e infantil, mais controle das doenças infecciosas, do envelhecimento, além de auxiliar na promoção da saúde, prevenção e gestão para reduzir as complicações das doenças crônicas, bem como a mortalidade por câncer, doenças cardiovasculares e diabetes.

Para colocar em prática ações que visem alcançar a meta da saúde universal, desde 2013, o relatório da OMS sobre a situação da enfermagem e obstetrícia (OMS 2008-2012) e a Resolução Recursos humanos para a saúde: ampliando o acesso a profissionais de saúde qualificados em sistemas de saúde baseados na Atenção Primária à Saúde (APS), da OPAS, vêm destacando a importância da Enfermagem de Prática Avançada como estratégia para aumentar a força de trabalho na APS na América Latina.

O que é a Enfermagem de Prática Avançada? 

O Conselho Internacional de Enfermeiros (CIE) define uma enfermeira/o com prática avançada como “a/o que tenha adquirido os fundamentos de conhecimento especializado, habilidades de tomadas de decisão complexas e competências clínicas para a prática expandida, cujas características são determinadas pelo contexto do país em que está autorizada a exercer. Um mestrado é recomendado para iniciantes”.

O campo de atuação do EPA constitui a prática clínica e impõe também outras responsabilidades como a formação de enfermeiras/os e outros profissionais de saúde, a prática baseada em evidências e pesquisas, liderança na organização e desenvolvimento profissional. A combinação desses fatores leva à inovação e à melhoria nos cuidados de saúde.

No Brasil, a implementação das Práticas Avançadas em Enfermagem segue os modelos americanos e canadenses e já estão ocorrendo experiências nesse sentido no ambiente hospitalar. O Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), em parceria com a OPAS, tem promovido ações para implementar a EPA no âmbito da APS. Inclusive está em andamento a pesquisa: “Práticas de Enfermagem no Contexto da Atenção Primária à Saúde: Estudo Nacional de Métodos Mistos”, cujo objetivo é compreender as práticas de Enfermagem contextualizando cenários de atuação e perfis de enfermeiros e enfermeiras do Brasil e analisar quais delas podem ser elencadas como Práticas Avançadas de Enfermagem.

Artigo recente intitulado “Práticas Avançadas de Enfermagem: percepção de egressos da residência e do mestrado profissional” mostrou que é possível ampliar o escopo e a autonomia da prática clínica do enfermeiro, com base nas melhores evidências científicas. Entre os pontos citados neste artigo como desafios para a formação e implementação da EPA, estão: a legislação da prática de enfermagem, o investimento na formação profissional, na educação permanente dos profissionais e no desenvolvimento de práticas baseadas em melhores evidências, a fim de responder às necessidades de saúde da população.

A atuação do enfermeiro de prática avançada na Atenção Primária à Saúde parece ser a estratégia ideal para unir três objetivos principais: a ampliação do acesso à saúde da população, a implementação efetiva da EPA no Brasil e a entrega de uma saúde mais resolutiva, de cuidado integral de indivíduos, famílias e coletividades, atendendo suas necessidades, a fim de promover, prevenir e recuperar a saúde dos pacientes.

A Covid-19 pode inclusive acelerar essa implementação das Práticas Avançadas em Enfermagem, uma vez que há escassez de profissionais de saúde devido a pandemia.

Num cenário de envelhecimento da população e cuidados aos idosos, com necessidades de gestão, maior promoção da saúde e prevenção de doenças crônicas, escassez de trabalhadores e o aumento dos custos de cuidados de saúde, a inovação em saúde é essencial e as Práticas Avançadas em Enfermagem podem ser uma das soluções.

 

Referências pesquisadas:

Participe da pesquisa da UnB em parceria com o COFEN […]. Disponível em: https://redeaps.org.br/2020/08/04/participe-da-pesquisa-da-unb-em-parceria-com-o-cofen-praticas-de-enfermagem-no-contexto-da-atencao-primaria-a-saude/

Práticas avançadas de Enfermagem […]. Disponível em: https://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-21002019000300254

Prescrição por enfermeira(o) em tempos de Coronavírus: pode? Deve! Disponível em: https://apsredes.org/prescricao-por-enfermeirao-em-tempos-de-coronavirus-pode-deve/

Seminário do laboratório de inovação em Enfermagem. Disponível em: https://apsredes.org/enfermagem/opas-e-cofen-realizam-seminario-do-laboratorio-de-inovacao-em-enfermagem/

Por Camila Leal, especial para a ForMedici